A ministra da educação voltou a lançar o repto para acabar com a política de “chumbos”.
O coro de protestos levantou-se logo. Quase invariavelmente, para os comentadores da educação – que mesmo, nalguns casos, sendo professores – pôr em causa o “chumbo” é abrir caminho para o facilitismo.
Aprendi com o meu avô, durante 4 anos jovem soldado de trincheiras, que entrincheirar-se não é uma boa solução. Equivale a ausência de raciocínio humano.
Argumentos fúteis e de senso comum raramente ajudam a reflexão sobre a questão. E a única dúvida que me surge é: alguém está verdadeiramente interessado nas aprendizagens das crianças? Entre os que se consideram elites da nação, ou peritos no comentário sobre a educação, alguém está verdadeiramente interessado que se reflicta acerca da situação?
Por outro lado, como prático, posso testemunhar episódios em escolas agora referidas como de zonas de intervenção prioritária onde trabalho e intervenho desde há muitos anos.
As situações costumam começar da mesma forma. As crianças faltam, mais do que é suposto, às aulas ou não obedecem ao padrão normalizado com depósito de informação, e invariavelmente a família é acusada de falta de interesse pela escola. A escola nunca é acusada de falta de interesse pelas crianças. A partir daí, assisti a três cenários:
Um cenário frequente, entre nós, é aquele no qual se notifica a família da falta da criança ou do atraso na matéria, se avisa a criança que tem faltas a mais ou que está em risco de chumbar devido aos maus resultados e que portanto terá que repetir o ano escolar. Durante o resto do ano escolar tem-se menos um aluno na sala de aula e toda a comunidade escolar sabe que aluno irá repetir o ano.
Se, no ano seguinte, a situação se volta a repetir, a criança volta a chumbar. E assim sucessivamente.
Uma variante é de desaconselhar a criança de fazer a prova de aferição no fim do ciclo, para depois a avisar que não poderá ingressar o ciclo seguinte por não ter feito a tal prova.
Um segundo cenário, menos frequente, é de uma escola que se recusa ao fenómeno de registo de faltas e de triste abanar da cabeça. Coloca uma pergunta simples: será que aquela criança falta, porque sente que não faz falta?
Tenho tido o privilégio de trabalhar com alguns agrupamentos que “levam a peito” a proposta de acabar com os “chumbos”. Procuram perceber porque é que as crianças faltam ou porque têm tantas dificuldades em apropriar-se do saber, como as motivar para a escola, como motivar os professores para trabalhar com estas crianças que ainda não atribuem qualquer sentido à escola.
Recorrendo ao financiamento que o TEIP lhes permite, algumas destas escolas têm procurado reforçar meios e alteraram práticas de sala de aula, para que as crianças, numa pedagogia diferenciada, pudessem encontrar-se ou reencontrar-se com as dificuldades que uma cultura escolar que lhes era estranha e muitas vezes lhes colocava.
Pela segunda vez em dois anos consecutivos, perto de 300 professores do 1º até ao 9º ano, todos leccionando em escolas TEIP, estiveram num seminário “Aprendizagens em Debate” onde, pela segunda vez, foram apresentados mais de 50 relatos de prática de pequenos e grandes sucessos de aprendizagem das crianças.
Neste seminário não se falou de chumbos, nem do combate ao chumbo. Não era preciso.
Neste seminário foi evidente o esforço do trabalho de professores titulares de turma, direcções e conselhos de turma, professores PLNM e das próprias crianças e adolescentes. Foi um encontro de profissionais de educação onde vimos que é possível uma reorganização do trabalho, um reforço da autonomia em tempos de estudo autónomo e uma eficaz utilização de instrumentos de regulação do trabalho, orientados por professores e alunos tutores, e seguidos pelos próprios alunos.
Não estavam na sala dirigentes políticos, nem eternos opositores e adeptos do mal-dizer para ver o trabalho sério aqui apresentado, analisado e discutido, entre pares.
Um terceiro cenário, utópico para Portugal, foi aquele que me foi mostrado em duas escolas em Londres – Kessington, uma primária e uma secundária, ambas dirigidas pela Igreja Anglicana, ambas com uma população pobre, ambas multi-étnico, multi-lingue e multi-religião, onde direcção e professores receberam, em verdadeira autonomia, os meios para diminuir drasticamente o insucesso escolar e o abandono. Duas escolas respectivamente com 400 e 700 alunos, e 43 e 64 línguas maternas diferentes. Escolas que procuraram parcerias com o Instituto de Educação de Londres e com estruturas da Câmara para honrar os seus objectivos inscritos no seu projecto educativo e em função da população escolar que têm. Escolas onde trabalhar, para o sucesso das crianças e dos adolescentes, passa pela autonomia de gestão de pessoal e de verbas. Escolas, que convidam a inspecção a trabalhar com elas, quando se apercebem que existe o perigo de um desvio no caminho traçado e que querem mais um olhar externo, de quem mais tarde as irá avaliar globalmente.
Três cenários, numa sociedade escolarizada.
É possível que, no primeiro cenário, o desleixo da escola se transforme numa tendência para o facilitismo por parte da própria escola. As crianças não têm culpa nisso.
As escolas inscritas no segundo cenário sabem que é mais fácil dizer que se vai acabar com os “chumbos”, do que o fazer. Sobretudo porque vivemos num país de falsas autonomias, onde as medidas de discriminação positiva são sempre atacadas, à esquerda e à direita, e que têm como resultado líquido, frequentemente, não conseguirem manter equipas em contratos estáveis a trabalhar. São escolas que sabem que são escolas dos pobres e que, em vez de apoiadas para conseguir os objectivos que se coloquem, são invariavelmente comparadas com as escolas dos ricos, nas estatísticas. Como poucos as querem ver, existe um real risco que não haverá uma avaliação séria, com recomendações claras, enumerando estratégias interessantes e eficazes.
Sobre o terceiro cenário nem vale a pena falar. As escolas inglesas gerem o seu próprio orçamento. Gerem as suas equipas, gerem as suas estratégias, fazem da situação encontrada um estudo para encontrar estratégias, que envolve toda a comunidade escolar, professores, alunos, pais e directores.
O “chumbo” é um problema criado pela escola. E um problema criada pela sociedade quando ela é escolarizada. Numa sociedade escolarizada, o “chumbo” é a exclusão. Acabando com a escola, acaba-se com “chumbo” na escola. Uma hipótese interessante, mas que obriga a estruturas colectivas alternativas para mediar as aprendizagens de cada um, para garantir o seu lugar consciente na sociedade em que vive. O que custa dinheiro
Mas a escola está lá, entre nós, e também custa dinheiro. O “chumbo” na escola que nos rodeia é caro, existem dados divulgados sobre o assunto. Na escola como a conhecemos, poupar com o fim dos “chumbos”, obriga a investir no reforço de estratégias de diversificação pedagógica. Este reforço de meios, nos programas de intervenção existentes, custa mais uma vez dinheiro, muito dinheiro.
Entretanto o discurso acerca do facilitismo surge, quando existe falta de reflexão acerca de uma instituição escolar longe de perfeita, onde não é desenvolvida a diversificação pedagógica que permite a mediação das aprendizagens de cada um. É uma conversa em torno de uma visão de antanho, recheado de slogans acerca das famílias pobres, com uma escola vigilante, castigadora.
A reflexão mais estimulante, mais arrojada, permitindo vislumbrar uma outra mediação colectiva das aprendizagens, está na margem de toda conversa, eufemísticamente intitulada debate, em torno dos “chumbos” na escola. O que é pena, porque poderia ajudar a perceber como investir melhor dinheiro público em estruturas públicas mediadoras da aprendizagem.